
A figura do diretor-regente sempre foi central na história da Orquestra Lira Sanjoanense. O regente é o responsável pela vida musical da corporação, escolhendo – com a colaboração dos seus auxiliares – o repertório das grandes solenidades e compromissos cotidianos, elaborando programas para concertos e recitais, regendo e ensaiando coro e orquestra e por fim, representando a instituição em assuntos artísticos. Desde a sua fundação em 1776 por José Joaquim de Miranda, a Orquestra Lira Sanjoanense conta com uma linhagem de regentes, que ao longo do tempo zelaram pela boa música, pela disciplina e pela manutenção artística da entidade. A partir da documentação da entidade, a linhagem dos regentes possui a seguinte organização:
José Joaquim de Miranda – 1776 a 1802 (efetivo)
Joaquim da Silva Vasconcelos – 1802 a 1820 (efetivo)
José Marcos de Castilho – 1820 a 1827 (efetivo)
Francisco de Paula Miranda – 1827 a 1846 (efetivo)
Francisco Martiniano de Paula Miranda – 1846 a 1854 (efetivo)
Marcos dos Passos Pereira – 1854 a 1855 (efetivo)
Hermenegildo José de Souza Trindade – 1855 a 1864 (efetivo)
Antônio do Carmo Teixeira Pinho – 1864 a 1867 (efetivo)
Francisco Camilo Victor de Assis – 1867 a 1871 (efetivo)
Hermenegildo José de Souza Trindade (2º mandato) – 1871 a 1875 (efetivo)
João Ignácio Coelho – 1875 a 1876 (efetivo)
Carlos José Alves – 1876 a 1882 (efetivo)
Luiz Baptista Lopes – 1882 a 1907 (efetivo)
João Feliciano de Souza – 1907 a 1924 (efetivo)

João Feliciano de Souza nasceu em São João del-Rei, aos 29 de outubro de 1861. Filho do casal Pedro Matias José de Souza e Sabina Maria dos Santos Souza. Foi professor de inglês, latim e música, sendo reconhecido como homem de letras e extremamente culto para a época, lecionando inclusive em várias escolas normais dentro e fora de São João del-Rei. Prolífico compositor, foi autor de ricas peças musicais que se tornaram repertório obrigatório de missas e grandes festas religiosas, à exemplo da Novena de Nossa Senhora da Boa Morte, com destaque para o solo ao pregador Applaudatur, de grande pompa e consagrado como ‘canônico’ na tradição do respectivo novenário. Assumiu a regência e direção da Orquestra Lira Sanjoanense em 1907, após o falecimento de Luiz Baptista Lopes, de quem era amigo e grande colaborador. De acordo com a documentação remanescente, sua eleição como diretor-regente se deu por aclamação unânime, tendo em vista o enorme respeito e a elevada reputação que possuía dentro da corporação. Mesmo não aceitando o cargo de pronto, assumiu o posto após grande clamor dos músicos da Lira e de uma comitiva de personalidades ilustres da cidade de São João del-Rei, que o convencera a ocupar o cargo. De acordo com os seus contemporâneos, mesmo sendo um homem de refinada cultura, possuía um espírito recolhido, humilde e extremamente modesto. Tal personalidade acanhada e retraída contrastava com a enorme capacidade musical e o imenso saber intelectual, destacando-se numa sociedade essencialmente conservadora e escravocrata. Tal observação se faz necessária, tendo em vista que João Feliciano foi um homem negro, alcançando enorme prestígio e respeito. Nesse sentido, João Feliciano foi um dos raros exemplos de ascensão social de negros no contexto da escravidão ainda operante no século XIX, ascensão essa obtida através de arranjos de apadrinhamentos com personalidades locais, casamento interracial e demonstração de ‘talento’ por meio do saber-fazer musical. Foi também o músico responsável pela transição da Orquestra Lira Sanjoanense do século XIX para o século XX, iniciando um lento processo de modernização que se encerrou, grosso modo, durante a regência do seu filho, Pedro de Souza. Faleceu também em São João del-Rei em 28 de dezembro de 1924.
Fernando de Souza Caldas – 1924 a 1949 (efetivo)

Fernando de Souza Caldas nasceu em São João del-Rei em data desconhecida, provavelmente na década de 1870. Foi músico da Orquestra Lira Sanjoanense e serviu à instituição através dos cargos de secretário e diretor-regente, sendo inclusive o seu primeiro presidente. É possível que Fernando Caldas tenha sido o responsável por separar as responsabilidades administrativas da entidade da figura do diretor-regente, instituindo assim duas autoridades representativas: o diretor-regente enquanto autoridade musical e o presidente como autoridade administrativa. Foi amigo íntimo e fiel colaborador do Maestro João Feliciano de Souza, assumindo a regência após o seu falecimento no ano de 1924. Através dos documentos remanescentes, é possível identificar Fernando Caldas como um homem responsável, respeitado pelos seus contemporâneos e detentor de uma personalidade severa. Foi mestre de Pedro de Souza, inserindo-o no fazer musical dentro das fileiras da Lira Sanjoanense e com ele dividindo a batuta de maestro. Faleceu em 1951.
Dr. Pedro de Souza – 1934 a 1949 (auxiliar interino)

Dr. Pedro de Souza nasceu em Carrancas em 1902. Filho do maestro João Feliciano de Souza, ex-diretor da Lira Sanjoanense e de Ricardina da Silva e Souza, aportou aos dois de idade na cidade de São João del-Rei, tornando-se uma das estrelas mais fulgurantes da velha urbe. Foi presidente e maestro da Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei e diretor do Conservatório Estadual de Música ‘Pe. José Maria Xavier’. Ingressou na Orquestra Lira Sanjoanense na década de 1920 c0mo flautista e assumiu posteriormente o posto de regente auxiliar em 1934, colaborando com o maestro Fernando Caldas. Tendo em vista o talento e o enorme senso de organização e dever, além de ser filho do inesquecível maestro João Feliciano de Souza, logo passou a colaborar intensamente com a rotina musical da corporação, contribuindo também com a administração da orquestra ao lado de Fernando Caldas, que nutria por Pedro de Souza um irrestrito respeito e sentimento paternal, tendo em vista que foi colaborador, secretário e amigo pessoal de João Feliciano, pai de Pedro de Souza. O músico foi considerado o sucessor natural de Fernando Caldas, assumindo a regência titular em 1949.
Dr. Pedro de Souza – 1949 a 1995 (efetivo)

Dr. Pedro de Souza nasceu em Carrancas em 1902. Filho do maestro João Feliciano de Souza, ex-diretor da Lira Sanjoanense e de Ricardina da Silva e Souza, aportou aos dois de idade na cidade de São João del-Rei, tornando-se uma das estrelas mais fulgurantes da velha urbe. Foi presidente e maestro da Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei e diretor do Conservatório Estadual de Música ‘Pe. José Maria Xavier’. Assumiu a regência efetiva da Orquestra Lira Sanjoanense em 1949, após o falecimento do maestro Fernando Caldas, de quem foi amigo íntimo e grande colaborador. Enquanto maestro efetivo, Pedro de Souza marcou profundamente a corporação, possuindo estilo sóbrio, rígido e essencialmente formal. Durante esse período, projetou a Orquestra dentro do cenário nacional, inclusive colaborando com o musicólogo Francisco Curt-Lange, de quem se tornou amigo. Foi o responsável pela formação de várias gerações de músicos na Orquestra, sustentando a entidade como verdadeiro baluarte e detentor de uma apaixonada abnegação pelo saber-fazer música na Lira. Faleceu em São João del-Rei, no ano de 1995, causando enorme comoção no mundo da música na Região das Vertentes e em Minas Gerais.
Cap. Benigno Parreira – 1995 a 2009 (efetivo)

Nasceu em São João del Rei no ano de 1931, filho de José Venâncio Parreira e Olira Manoel José Gomes Parreira. Iniciou seus estudos musicais com o Maestro Joaquim Laurindo, que por muitos anos conduziu a Banda de Música Santa Cecília, cuja sede era no Morro da Forca, Alto do Bonfim, em São João del Rei. Ingressou no Exército, e como executava muito bem o clarinete, foi para a Banda do 11° Regimento de Infantaria. Foi preparado pelo Maestro Adhemar Campos Filho para o exame de Mestre da Banda. Foi condutor da Banda do 11° , da Orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos e da Orquestra Lira Sanjoanense. Na Lira, ingressou em 1952. Foi Presidente, Secretário, Diretor e Regente. Também atuava como barítono, realizando vários solos. Em 1976, foi transferido para o Rio de Janeiro. No Rio, o Capitão Parreira formou um Coral com músicos militares e alunos universitários. Em 1982, realizou no Rio de Janeiro um concerto na Festa de Santa Cecília, que reuniu cerca de 700 músicos sob sua batuta, incluindo músicos militares do Exército, Marinha, Força Aérea, Polícia Militar e Bombeiros. Em 1986, voltou para São João del Rei, após entrar para a reserva e deu continuidade às suas atividades musicais. Das suas composições, a Marcha “Saudades” (1957), é a mais conhecida. Segundo o trabalho do Doutor em Música, Edésio Lara de Melo, é a Marcha fúnebre mais tocada em Minas Gerais. Falecido em 19 de agosto de 2022.
Teófilo Helvécio Rodrigues – 2005 a 2009 (auxiliar)

Nasceu em São João del Rei, MG. Filho do maestro Teófilo Inácio Rodrigues e Glória Nunes Rodrigues. Iniciou seus estudos com seu pai e aos 10 anos ingressou na Banda “Theodoro de Faria”, tocando saxofone alto em Mib. Em 1968, ingressou na Orquestra Ribeiro Bastos , como trombonista e bombardinista, e em 1971, como trompetista, na Orquestra Lira Sanjoanense. Em 1973, ingressou como soldado do 11°BI, sendo lotado na Banda de Música, sob a regência do então Subtenente Benigno Parreira. No ano seguinte foi transferido para o Rio de Janeiro, para a Banda de Música do 1° Batalhão de Guardas do Rio de Janeiro. Aperfeiçoou os estudo de música na Academia “Lorenzo Fernandez” e com professores como Rubens Brandão, da UFRJ. Em 1977 foi transferido para o Batalhão da Guarda Presidencial em Brasília/DF . Retorna ao Rio de Janeiro em 1986 como Mestre de Música e Regente da Banda da Escola de Sargentos de Armas. Em 1990, assume em São João del-Rei, a função de Mestre de Música , como Subtenente. No período de 1990 a 1996 assume a regência da Orquestra da Sociedade de Concertos Sinfônicos. Em 1996, volta à Brasília como regente auxiliar da Banda de Música do Batalhão da Guarda Presidencial. Em 1998, foi transferido para o 12°BI, em Belo Horizonte, MG, como regente da Banda de Música da 4° Região Militar. É promovido a Capitão em 2003. A frente desta Banda destacam-se 2100 apresentações, em diversas Salas e Teatros, em conjunto com as Bandas da Aeronáutica, Bombeiros, Polícia Militar. Participou como palestrante em diversos congressos, inclusive o I e II Encontros Internacionais de Instrumentistas de Sopros , promovidos pela UFMG. Aposentou-se em 2005, após 32 anos de serviços prestados ao Exército Brasileiro. Após sua aposentadoria, retorna à sua terra natal e volta a assumir a regência da Orquestra Lira Sanjoanense, assim como a Banda Theodoro de Faria, em parceria com o irmão Tadeu Nicolau Rodrigues. Em 2007, foi eleito Presidente da Sociedade de Concertos Sinfônicos, também assumindo a sua regência. Em 2009 participou do Projeto “Bandas de Cá”, financiado pela FIEMG, que reuniu 12 bandas mineiras, em diversas apresentações nas cidades históricas, promovendo posteriormente um concurso de arranjos de músicas populares para Bandas de Música. Compôs diversas músicas, entre elas, Missas, músicas religiosas, peças para orquestra, Marchas, além de inúmeros arranjos.Atualmente reside em Brasília/DF.
Aluizio Viegas – 2009 a 2015 (auxiliar)

Aluízio José Viegas nasceu em 26 de Março de 1941, em São João de Rei. Filho de Henrique de Assis Viegas (Lilico) e Maria José Barbosa Viegas (Dona Mulata). Iniciou seu interesse musicológico em 1959, ao salvar da destruição um número significativo de fontes musicais do arquivo musical de Japhet Maria da Conceição, herdeiro de Martiniano Ribeiro Bastos. Em 1960 ingressou como violoncelista na Orquestra Lira Sanjoanense, fundada em 1776, dedicando-se posteriormente à flauta e ao contrabaixo. Aluizio dedicou-se também, ao longo da vida, a trabalhos junto à Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar e ao estudo da história da música são-joanense e arredores e da sua divulgação. No mesmo ano, iniciou suas atividades no arquivo musical da Lira Sanjoanense, inicialmente copiando fontes musicais e, a partir de 1963, deu início à pesquisa e divulgação da música sacra brasileira dos séculos XVIII e XIX, relacionada às obras de Manoel Dias de Oliveira (1734/5-1813), Jerônimo de Souza Lobo (?-1811), João de Deus de Castro Lobo (1794-182) e José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746?-1805), entre outros. Em sua atividade como musicólogo, integrou a equipe da pesquisa O ciclo do ouro: o tempo e a música no barroco católico (PUC-RJ), como membro da Comissão de Análise de Documentos (CAD) e como editor da série Música Sacra Mineira – Séculos XVIII e XIX (hoje também conhecida como Coleção Música Sacra Mineira), participando, juntamente com Francisco Curt Lange (1903-1997), na elaboração da primeira listagem de obras da Coleção Curt Lange recolhida ao Museu da Inconfidência/Casa do Pilar, em Ouro Preto (MG) em 1982. Desde 1963 colaborou com diversos pesquisadores, principalmente Cleofe Person de Mattos, Jaime Cavalcanti Diniz, Adhemar Nóbrega, Olivier Toni, Antônio Alexandre Bispo, Adhemar Campos Filho, Ernani Aguiar e Paulo Castagna. Participou de vários projetos da Fundação Nacional de Artes, do Museu da Música de Mariana (especialmente o projeto Acervo da Música Brasileira) e da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais (especialmente o projeto Patrimônio Arquivístico-Musical Mineiro), na publicação de obras de compositores brasileiros dos séculos XVIII e XIX. Além da Orquestra Lira Sanjoanense, dirigiu a Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei e atuou como pesquisador da Cúria Diocesana de São João del-Rei e do Museu de Arte Sacra de São João del-Rei. Publicou várias partituras e trabalhos científicas, entre artigos e capítulos de livros (alguns disponíveis online), mas deixou grande número de partituras e textos manuscritos, principalmente no arquivo da Orquestra Lira Sanjoanense.” Casado com Niva Maria Brighenti Viegas e pai de Beatriz do Carmo Brighenti Viegas, Aluízio faleceu em 27/07/2015, em Nova Lima/MG, em decorrência de complicações de um AVC.
Willer Silveira – 2009 a 2014 (efetivo)

Willer Silveira nasceu em São João del Rei em 1987. Mestre em música pela Universidade Federal de São João del-Rei-MG com a dissertação Oficio de Quinta-feira Santa de Antônio de Pádua Alves Falcão (1848 – 1927): Problemas textuais e edição critica (2022). Possui Licenciatura em Música/ habilitação em Violino pela Universidade Federal de São João del-Rei (2011). Atua desde 2005 como regente e professor de Violino na Sociedade Orquestra e Banda Ramalho-Tiradentes-MG, onde tem desenvolvido grande trabalho recopiando e editando todo o acervo que conta com exemplares dos séculos XVIII, XIX e XX. Integra a Orquestra Lira Sanjoanense desde 2006, onde atuou como Diretor-regente entre os anos de 2009-2014 executando peças de compositores mineiros. Atuou como regente convidado da Orquestra Ribeiro Bastos. Foi professor do Conservatório Municipal Heitor Villa-Lobos de Barbacena entre os anos de 2007 e 2016, onde lecionou Violino, Canto Coral e prática em conjunto.
Prof. dr. Modesto Flávio Chagas Fonseca – 2015 – presente

Modesto Flávio é Professor Adjunto do Departamento de Música da Universidade Federal de São João Del Rei, lecionando as disciplinas Prática de Orquestra, Canto Coral, Fundamentos da Regência, Harmonia e Análise Musical. É graduado em música – Bacharelado em Regência em 1993 pela Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte (MG), Mestre em Musicologia pela Universidade Federal do Estado Rio de Janeiro – UNI-RIO em 2004 e Doutor em Musicologia na mesma universidade em 2013. Foi Regente Adjunto da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo entre os anos de 1993 a 2010 e em 1994 forma a Orquestra de Câmara de Viçosa – MG sendo também seu regente titular. Formou, em 2001, o grupo Coro e Orquestra Domine Maris e o Capela Del Rey em 2010, ambos dedicados à divulgação da música brasileira dos séculos XVIII e XIX, no qual atua como violista, regente e diretor artístico. Com o primeiro gravou, em 2005, o CD “Creator Alme” que faz o primeiro registro sonoro da maioria das obras que nele constam. Com o segundo realizou em 2011 uma série de concertos nas regiões central e norte do Brasil. Diretor Regente da Orquestra Lira Sanjoanense desde 2015. Coordena o Centro de Documentação Musical de Viçosa – CDMV e realizou a publicação de dois volumes de obras sacra e para banda, pertencentes aos acervos viçosenses e da região.
*Importante salientar que ao longo dos anos, sobretudo a partir dos anos 2000, houveram regentes auxiliares dos regentes titulares, além de outros colaboradores que assumiram a regência ad hoc. Portanto, há lacunas.
